17 de jun. de 2009

CINCO MUNDOS - CINCO NÍVEIS DO DESEJO DE RECEBER


Por - Rav Michael Laitman
Existem cinco mundos entre o Criador e o nosso mundo. Eles são chamados: Adam Kadmon, Atzilut, Beria, Yetzira e Assiya. Abaixo do mundo de Assiya fica Machsom, e abaixo o nosso mundo. Nosso objetivo, enquanto vivendo em nosso mundo, é que nossa alma atinja o nível do mundo de Ein Sof, ou seja, consiga a unificação completa com o Criador. Isto é, quando nossa alma reveste o corpo neste mundo, ela deverá mudar os seus atributos do egoismo para os atributos do Criador, em cada nível espiritual, até que nosso egoismo total seja substituido pelo altruismo. Quando isto ocorre, os atributos da nossa alma se tornam completamente equivalentes ao atributo do Criador.
Em nosso mundo, dois atributos egoistas são habilitados: "receber pela recepção" e "doar pela recepção". Os mundos espirituais consistem do seguinte atributo: "doar por doar" ou "receber para doar". A primeira tarefa de uma pessoa que quer entrar no "mundo que virá" é restringir o uso de seus desejos ou realizar o Tzimtzum Alef. Significa parar de trabalhar com o egoismo ou os desejos egoistas.
Náo podemos mudar nosso "desejo de receber" porque esta é a única coisa criada pelo Criador. Entretanto é possível e necessário mudar a intenção do desejo de "receber para seu próprio benefício" para a intenção de "receber para o benefício do Criador". Assim, podemos ver que a ação não se modifica , é apenas a intenção que muda.
A metodologia de mudar a intenção (algo que ninguem consegue ver e que está oculto de todos) é chamada de a Ciência Secreta da Cabala. É a metodologia de como receber mudando a intenção. O importante é o que estamos pensando quando desenvolvemos uma determinada ação e qual o objetivo que é perseguido quando a realizamos. Todos os 125 níveis são gráus de correção gradual da intenção da alma, desde receber em seu próprio benefício para receber em benefício do Criador.
Os cinco mundos são níveis do desejo de receber, começando pelo mais fraco (Keter) e terminando com o mais forte (Malchut). Eles são construidos desde o topo (o Criador) e descendo até a criação. Na medida em que a luz vem do Criador e atravessa os mundos, ela vai se tornando mais fraca, logo, adequada a ser percebida pelos fracos desejos egoistas. Quando a alma recebe a luz de correção do alto, ela começa a mudar a intenção de "para seu próprio benefício" para "receber em benefício do Criador", ou "doar".
A alma alcança a linha da Machsom apenas se realizar o Tzimtzum Alef em todos os desejos que consegue perceber nesse estado, ou seja, quando se recusa completamente a operar com o egoismo. Entretanto, ela ainda não é capaz de receber nada em benefício do Criador.
Quando a alma corrige sua intenção de doar ao nível de Keter ela entra no mundo de Assiya localizado acima de Malchut. Isto é, quando ela é capaz de se opor ao egoismo o mais fraco possível, não recebendo nada e se anulando na luz superior. Se a alma for capaz de se opor ao egoismo na luz de Hochma, ela ascende ao nível do mundo de Yetzira.
A alma continua desta maneira, aumentando progressivamente sua capacidade de trabalhar contra as forças egoistas cada vez maiores, ascendendo ao nível espiritual seguinte, até alcançar o mundo de Ein Sof. A alma adquire sua essência como substância espiritual apenas após cruzar a Machson e continuar sua ascenção.
No mundo espiritual a pessoa lida com os desejos naturais, não revestidos pelas diversas aparências do nosso mundo. Um Cabalista que está no mundo espiritual, para de investigar o nosso mundo porque o percebe corretamente como o resultado natural do ramo correspondente à raiz espiritual. Para ele é mais interessante ver a causa ou a origem na raiz ao invés da consequência, localizada em um nível incomparávelmente mais baixo que a raiz, de onde todos os desejos e causas se originam.
Uma pessoa que ascende, transforma todos os desejos terrenos em desejo pelo Criador. Inicialmante quer possuir o Criador egoisticamente, do mesmo modo que desejava receber tudo neste mundo. Como se diz: uma pessoa deseja tanto o Criador que esta paixão não a deixa dormir!.
Gradualmente, uma luz chamada Ohr Makif, que constantemente envolve uma pessoa, começa a brilhar para ela, de modo que ela consegue uma solicitação pelo espiritual, com a ajuda desta luz, usando um desejo bem mais forte que todos os outros desejos. E finalmente, com o auxílio desta mesma luz, a pessoa atravessa a Machsom e recebe a intenção de doar.
Apenas a luz superior do Criador é capaz de elevar assim uma pessoa; fornecer-lhe a resposta para todos os seus esforços humanos pelo espiritual, trazê-la para o estado em que o desejo pelo espiritual é tão grande que não a deixa cair no sono e suplanta todos os demais desejos.
Todas as almas seguem, em seu caminho, estes mesmos estados, mas a atribuição de cada alma neste mundo é diferente. É tambem diferente a velocidade com que cada alma atravessa pelo mesmo caminho.
Cada pensamento, cada desejo e cada movimento de uma pessoa neste mundo, não importa qual pessoa, lhe é dado com um só objetivo: ascender e se acercar do espiritual. Entretanto, a maioria das pessoas segue esta progressão de uma maneira natural nos níveis humano inconsciente, animal, vegetativo e inerte.
Tudo está predeterminado e pré-programado pelo objetivo da criação. A livre escolha da pessoa consiste em optar por concordar com tudo o que lhe acontece ou começar a entender o objetivo para o qual tudo está direcionado e decidir ser um participante ativo em todos os eventos que acontecem com ela.
Todos os pensamentos e desejos no mundo de Ein Sof passam pela pessoa. Entretanto ela "capta" apenas os pensamentos correspondentes ao seu nível. Neste nível atual, a pessoa não é capaz de pensar sobre novas descobertas. Entretanto, na medida em que vai aumentando o nível de seu conhecimento e seus conceitos, ela começa subitamente a sonhar com algo complexo. Isto significa que ela deseja sentir e perceber um domínio mais complexo de percepções.
O domínio de atividades de uma pessoa ou a imagem que ela constróe com a percepção deste mundo aonde ela vive é construído desta maneira. Quando a pessoa se desenvolve, ela passa a ter pensamentoa mais profundos, com uma conexão diferente entre as coisas. Tudo então dependerá do nível de desenvolvimento da pessoa, pois este determina suas fronteiras de percepção ou que parte do mundo do Infinito ela perceberá.
Não há outra maneira de desenvolver o desejo pelo espiritual, de invocar a Ohr Makif para participar pessoalmente da realização do objetivo da criação e reduzir o caminho natural para alcançar esta objetivo, que não seja estudar em grupo sob a orientação de um professor. Apenas a luz que começa a brilhar pode nos ajudar a transformar nossos atributos egoistas (o único obstáculo no caminho espiritual) em propriedades altruistas.
Ohr Makif muda o nosso desejo para o desejo de doar e nos leva através da Machsom. Nós afirmamos que não queremos nada do mundo material e queremos apenas o espiritual. Se soubéssemos que atravessar a Machsom significa mudar a intenção com relação a quem e o que nós pensamos e nos preocupamos, nós iríamos correndo.
Continuando, entramos no território acima da Machsom onde encontramos um oceano de luz. Esta é a luz do Criador, que brilha sobre nós na mesma proporção em que nossa exaltação pelo Criador é maior que o nosso desejo egoista. Isto nos dá a oportunidade de adquirir a propriedade da luz, ou de doar.
O mais importante é atravessar a Machsom. A alma que recebeu a luz sabe todo o caminho que se segue à passagem, por que a luz lhe ensina. Lá encontraremos um mapa claro e as instruções para cada passo e ação subsequente. São as instruções que os Cabalistas nos escreveram em seus livros.
Cada mau pensamento é oposto aos bons pensamentos do Criador, mas como transformar um mau pensamento em bom? Primeiro é preciso entender que o pensamento é mau; comprender sua maldade para poder tomar a decisão de corrigí-lo. Só podemos identificar o mal sob a luz do Criador ou em Sua grandeza. Entretanto se a luz não brilha em uma pessoa ela está cega e na escuridão, abaixo da Machsom, onde a luz não penetra. A pessoa existe neste mundo e acredita que todos os seus pensamentos são bons.
Quando uma pessoa é iluminada pela luz do Alto ou a luz circundante chamada Ohr Makif, ela começa a ver toda a sua essência. Isto se chama "a realização do mal". Sem esta iluminação pela luz, a pessoa tenta se justificar e se acha sempre correta. Entretanto, a realização do próprio ego pela iluminação da luz leva a pessoa a pedir a ajuda do Criador. E ainda, graças à iluminação, a pessoa já percebe a fonte da iluminação e sabe precisamente para Quem precisa apelar.
Se o apelo da pessoa é genuíno, o Criador fará a alteração de sua natureza. Entretanto, o desejo de receber não muda; a única coisa que muda é a intenção de "receber em seu próprio benefício" para "receber para o Criador", o que corresponde a doar. É assim que a mudança gradual dos atributos da pessoa para os atributos do Criador se dará em cada um dos 125 níveis.
Cada nível inclue diversos processos:
a realização do mal: quanto pior a pessoa está na linha esquerda, em relação ao Criador;
que ajuda precisa receber do Criador em Sua linha direita;
a combinação entre as linhas direita e esquerda; quanto a pessoa pode receber da linha direita, ou seja, passar para a linha central.
Como resultado destas ações, mais uma parte dos desejos de uma pessoa se tornam equivalentes ao Criador, permitindo que ela passe para o nível seguinte. Isto prossegue em cada nível, até que todos os atributos da pessoa se tornem iguais aos atributos do Criador.
Os desejos de uma pessoa determinam sua ação. É impossível realizar ações sem desejos! Por exemplo, amanhã tenho que acordar cedo, logo hoje vou dormir cedo. Estou fazendo isto contra o meu desejo? Não! Ninguem neste mundo é capaz de realizar ações sem o desejo e sem preencher este desejo com prazer. O desejo é a energia ou a força motriz que dá a uma pessoa a oportunidade de fazer algo.
As vezes nos parece que estamos fazendo algo contra o nosso desejo. Este não é o caso. Fazemos um cálculo bem simples, que fazer isto é benéfico mesmo se contra o desejo. Se for benéfico para a pessoa, ela executará varias ações desagradáveis e indesejadas.
Pela escolha, uma pessoa é capaz de trazer para perto outro desejo, criá-lo e realizá-lo. Nenhum de nós seria capaz de mover nem o dedo sem receber a força motriz para isto ou fazer se aproximar outro desejo.
A pessoa que faz algo bom para outra pessoa pensa que isto é realmente o caso e que esta ação não é egoista. Entretanto, se penetrar no fundo dos seus pensamentos ela verá que tudo o que ela faz tem sòmente um objetivo: fazer algo bom para si própria e todo o resto é sua mentira.
Se a pessoa estuda a Cabala, ela é capaz de ver como isto funciona; que cada um de nós é um absoluto egoista e não pensa em mais nada alem de si próprio, nem mesmo em seus filhos. Simplesmente, no presente estágio todo o sistema de pensamentos é defeituoso e parece impossível para uma pessoa fazer qualquer coisa em benefício de outra.
Só é possível doar para outro se estiver recebendo algo em troca, ou se beneficiando de alguma maneira. A pessoa não deve se envergonhar por isto. Esta é a nossa natureza. Ou recebemos para auto gratificação ou doamos com o objetivo de receber algum benefício por isto. Não é culpa de ninguem. A única coisa que precisamos fazer é ansiar por mudar nossos atributos para os do Criador.
A Cabala ensina às pessoas a aceitar as pessoas do modo em que foram criadas. Não podemos odiar alguem por causa disto nem ficar aborrecidos por que percebemos nela estes atributos. Na verdade, é difícil se comunicar com o mundo externo e ter paciência para observar o menor egoismo em alguem que encontramos. Entretanto, cada pessoa foi criada do jeito que tinha que ser. Devemos apenas tentar nos ajudar uns aos outros para mudar os atributos que recebemos em atributos altruistas.
O que é o sofrimento? É tudo aquilo que se opõe ao nosso desejo. Como diz o Talmud, se uma pessoa põe a mão no bolso tira uma moeda, mas queria outra, ela experimenta o sofrimento. O sofrimento é tudo na vida que não corresponde ao nosso desejo. Sofremos quando estamos de mau humor, doentes ou não queremos fazer alguma coisa.
Entretanto, tudo o que está sendo feito acontece para o nosso bem. De uma maneira ou de outra, tudo o que acontece nos avança em direção ao objetivo da criação. Exceto, em nossa percepção distorcida, bom parece mau e doce parece amargo.
Na realidade só é possível perceber o que é bom depois de atravessar a Machson. Neste momento, tudo é percebido como sofrimento. Isto acontece devido à falta de preenchimento pela luz. Enfim, a luz permanece do lado de fora enquanto nossos desejos não receberem a intenção altruista.
Enquanto uma pessoa não está se aproximando do espiritual, o desejo de receber é para ela o anjo da vida. Mas, pelo estudo da Cabala e pela atração para si da luz circundante, a pessoa gradualmente percebe quanto o desejo de receber é um obstáculo para a mudança da sua natureza egoista em altruismo. Ela vê que este é o verdadeiro inimigo do avanço e seus desejos se tornam o anjo da morte ao invés do anjo da vida.
Quando a pessoa consegue visualizar a maldade do seu próprio egoismo, em comparação com os atributos da luz que ele conseguiu perceber, surge um enorme desejo de remover estas correntes a qualquer custo. Mas, como uma pessoa é incapaz de fazê-lo sozinha, em desespero ela grita pelo socorro do Criador. E ela recebe esta ajuda, desde que este seja seu único desejo e seja autêntico.
Uma pessoa que queira se aproximar do espiritual deve ser como qualquer outra: tem que trabalhar como todo mundo, ter uma família e filhos. O importante é o que ela faz naquelas duas-três horas que são livres do trabalho e das responsabilidades caseiras. Fica na frente da TV ou em um restaurante, ou dedica seus esforços ao atingimento de seus objetivos espirituais?
Em qualquer caso, a pessoa não pode falar sobre o seu trabalho espiritual para ninguem; ela tem que ocultar completamente o que sente em relação ao Criador. Isto é assim para evitar danos no caminho espiritual de outras pessoas. Cada pessoa segue um caminho diferente. Quando atinge a correção total, tudo será revelado já que não haverá mais espaço para os obstáculos do ciume egoista.

17 de mar. de 2009

Êxodo - Do Físico ao Espiritual

As pessoas nesse mundo são todas pessoas comuns. Mas para um persa chamado Abram (e mais tarde, Abraham), o Criador Se revelou, e essa revelação o fez especial. Ele tornou-se um “Yehudi” (judeu), da palavra “Yechudi” (único), pois ele e o Criador tornaram-se um. Quem, então, é esse Abraham? Ele é um homem que foi dotado com uma centelha espiritual, uma sensação do Criador. Mas se não fosse por isso, ele seria uma pessoa comum.
Não há santidade em nenhum órgão de nosso corpo. Por isso, não importa se um coração deficiente é substituído por um coração humano, ou pelo coração de um porco. Nossos órgãos são tão materiais quanto os dos animais. Eles não são sagrados, não são conectados com o Criador.
Não há diferença entre um judeu e um gentio, além da centelha do Criador que se encontra no judeu. Isso significa que se essa centelha existe no coração de uma pessoa, essa pessoa é chamada judia. Se essa centelha desaparece, o judeu torna-se gentio. Esta, porém, é uma situação impossível, porque a santidade sempre aumenta, nunca diminui. Esta é uma lei espiritual, pela qual todas as coisas são aproximadas do Criador.
O êxodo para o mundo espiritual é um processo lento. Primeiro, o homem é cativo dos desejos deste mundo. Gradualmente, ele compreende a falta de propósito de sua existência física, pois se não houvesse aquela centelha, o homem seria apenas mais um no moinho.
Está escrito na Haggadah: “Primeiro, nossos pais serviram a deuses estranhos”. Servir a um deus estranho (paganismo) é um estado possível somente se a pessoa tiver feito contato com o Criador, tenha-se tornado consciente da oposição entre seus atributos e os atributos do Criador, e tenha escolhido agir contra a vontade do Criador. Assim, o paganismo já é um certo grau de consciência, de capacidade de operar além da natureza que foi dada à pessoa com o nascimento.De fato nossos pais serviram a deuses estranhos, mas então o Criador Se revelou a eles, e a luz que veio com esse processo foi aceita como uma ordem de migrar da Mesopotâmia para a Terra de Israel. Assim nós vemos que neste mundo também, a pessoa se move de um lugar para outro, seguindo seu desejo interno, seu coração.
Os Kabbalistas escrevem que nós podemos viver na Terra de Israel, desde que encontremos seu nível espiritual. De outro modo, estaríamos exilados daqui assim como antes. O Criador trouxe nossos corpos de volta, mas permanece nosso dever fazer o retorno interior para o estado espiritual chamado a Terra de Israel, e sermos merecedores dessa terra, que é tudo o que precisamos!
Abraham, o Patriarca, é um testemunho disto. Uma vez que ele tornou-se judeu, Deus disse a ele: “Saia de seu país, e de sua família, e da casa de seu pai, para a terra que Eu lhe mostrarei”. E Abraham moveu-se (interiormente) para a Terra de Israel: ele começou a desenvolver vasos espirituais, vasos de doação.
Mas para atingir a unidade com o Criador, é necessário mais do que a capacidade de doar (de doar por doar); é necessária a capacidade de receber por doar, através dos vasos de recepção, corrigidos pela intenção de doar ao Criador. Mas onde a pessoa encontrará esses vasos, esses desejos? Quando a pessoa está na Terra de Israel, e deseja doar ao Criador, descobre que não há nada para dar a Ele, e torna-se faminta, faminta por doação. Então a pessoa se exila no Egito. Mas por quê, para quê? Porque a renúncia aos nossos desejos de receber é contrária à nossa própria natureza, à natureza humana. De fato ninguém pode compreender isto. Nenhum outro método além da Kabbalah usa isto, porque esse ato se opõe à natureza humana. Todos os outros métodos têm origem na nossa natureza inata, e objetivam tornar nossa vida confortável, agradável, todos exceto a Kabbalah, que foi outorgada a Abraham com a sublime revelação do Criador.
Havia realmente muito trabalho no Egito?
Como se disse, o homem está confuso, faminto (tanto física quando espiritualmente). Os objetivos materiais tomam precedência, de modo que a pessoa possa compreender o quanto o espírito é superior à matéria. Recebe-se delícia espiritual em atos materiais. Mas o verdadeiro sabor do prazer material permanece apenas para os sábios (aqueles que aspiram à sabedoria, que ascendem ao espírito para viver verdadeiros desejos), pois são eles que devem confrontar os maiores prazeres.
Quando a pessoa progride em seus estudos, passa a ver a si mesma como mais e mais corrupta. Desejos ainda piores despertam nela. Precisamente isto é o exílio para o Egito, quando aquele que aspira subir a escada para o espiritual cai sob o domínio do desejo de receber.
É por isso que foi dito que os irmãos de José o visitaram no Egito em segredo. O exílio para o Egito acontece quando a pessoa perde os seus vasos de doação, quando eles caem no domínio dos vasos de recepção. Esse estado permanece por um período, durante a progressão da pessoa em espiritualidade.
Quando a pessoa começa a estudar, está em alto espírito, sem preocupações. Mas após alguns meses as coisas mudam. A espiritualidade não é mais tão atraente quanto antes, distúrbios materiais aparecem e a pessoa sente que nunca verá as portas dos Céus se abrirem.
Por que isso acontece?
Porque os vasos de recepção precisam ser desenvolvidos, uma tela (massach) deve ser adquirida e estendida contra os desejos do Egito. Na verdade, a pessoa possui os seus vasos de doação, mas eles estão ocultos. Quando o trabalho no Egito começa, a pessoa anseia por espiritualidade, mas quanto mais ela anseie por isso, mais ela vê que é inatingível.
O período da “escravidão no Egito” dura enquanto a pessoa sente que é realmente escrava, até que venha um novo rei, que não conheça Josef. A pessoa sente que seu Faraó interno a domina, e a conduz contra o Criador.Mas se o desejo de receber permite-me ter prazer, o que está errado nisto? Como esse domínio poderia ser prejudicial a mim?Se eu quero algo mais que a satisfação dos desejos, por exemplo, se eu quero ter contato com o Criador, mas compreendo que todos os prazeres materiais me distanciam Dele, começo a percebê-los como um obstáculo, como algo mau que opera contra mim.
Então, começa uma batalha interior. Começo a imaginar se esse “Eu” é aquele que deseja aderir ao Criador, ou se “Eu” é aquele que procura prazeres materiais. Quem, então, é o meu “Eu”?
Eclode uma guerra entre ambos os desejos: de um lado Moisés e Aaron e do outro, o Faraó. Não é possível prever quem vencerá quem, porque os magos do Faraó fazem os mesmos milagres que o Criador. Assim, só é possível escapar do domínio da natureza após o Criador ter batido dez vezes (as 10 pragas do Egito).
Para que meu “Eu” neutro sinta de onde vem a luz, ele precisa sentir os dez golpes – assim como o Faraó dentro de mim, que se opõe ao Criador – de modo que eu possa me destacar dele, e atingir um estado em que o próprio Faraó dirá: “Vá! Você me trouxe dor demais!”
Os dez golpes mostram ao homem que o domínio do Faraó é uma coisa odiosa, intolerável. Então o próprio homem deseja escapar desse domínio. Quer, mas não pode! Assim, para ter sucesso em escapar do Faraó, são necessárias certas condições externas. É preciso haver pressa, ocultamento e a escuridão da noite.
Somente então o homem pode reunir seus desejos de doação, separá-los de seu próprio desejo de receber e esconder-se deles. A escapada acontece à noite, quando a luz espiritual está fora. É preciso fé acima da razão, indo contra seu próprio julgamento, para escapar de sua natureza.
Diz-se: “Se você laborou e encontrou, então acredite”. Isso significa que a pessoa executou muito trabalho para que o Criador se revelasse, mas não sabe se esse trabalho é suficiente para sair deste mundo e entrar no mundo superior. A saída de nossa própria natureza é um evento súbito.O homem não tem controle sobre esse processo, ele simplesmente acontece! Ele anda sobre a terra, entre as muralhas do Mar Vermelho, a barreira, e entra... em um deserto. Então, o que ele ganhou com isso? O homem entra no Egito com uma centelha do Criador, com um anseio pelo espírito, e sai com vasos vazios de recepção – a sensação de um deserto.
Foi dito que Israel partiu com “jóias de prata, e jóias de ouro e outros ornamentos”. Isso significa que o homem agora tem desejos corruptos de receber e precisa começar a trabalhar com eles e corrigi-los. Pois enquanto esses vasos pertençam ao Egito, eles lhe darão somente a sensação de escuridão, de um deserto. Mas quando ele os corrige e os usa corretamente, através deles o homem receberá a luz superior.Então o homem entra no deserto. Ele ainda não está na Terra de Israel. Agora ele precisa da luz para distinguir o quanto cada atributo merece ser usado em sua progressão para o mundo espiritual. A recepção dessa luz é chamada a “recepção da Torah”.Uma pessoa que saia deste mundo para o mundo espiritual, começa a trabalhar em três linhas: uma à esquerda, uma à direita e uma intermediária. Precisamos compreender que não somos nós que fazemos o trabalho, é o Criador, é trabalho de Deus. Precisamos aceitar Seu trabalho sobre nós! Tudo foi criado em seu estado perfeito, mas a criatura somente pode acessar a perfeição, desde seu oposto. É por isso que o homem precisa experimentar todos os estados imperfeitos. O trabalho do homem é um processo de auto-conhecimento; conhecimento do trabalho que o Criador está fazendo sobre ele.
Há um mundo e dentro dele há uma alma. O contato com o Criador é composto de três partes: Olam (um mundo), Shanah (um ano), e Neshamah (uma alma). Shanah é a extensão do contato entre Olam e Neshamah. A palavra Olam tem origem na palavra He’elem (ocultamento). Isso significa que Olam é a extensão do ocultamento do Criador.
É possível atingir resultados espirituais cumprindo atos físicos?
Tudo o que o homem faz, é porque quer. A pedra também, que não tem movimento, quer manter sua forma. A planta quer crescer. Ela anseia pela luz e cresce em direção a ela.
O desejo do homem sempre se expressa em um certo ato. É por isso que cada movimento que cada animal faz é exatamente o movimento que ele precisa fazer.
Embora cada desejo seja expresso no exterior, o homem não está sempre consciente de seus desejos. Do exterior, não se pode compreender o propósito dos atos de outro. É por isso que a ciência que estuda as intenções é chamada “A Sabedoria do Oculto” – pois ninguém sabe o que está em nosso coração, freqüentemente, nem nós mesmos. Mas como sempre, a forma externa indica o desejo interno.
Nós ainda não estamos nos mundos espirituais e não podemos trazer outras almas para nossa tela. Assim, nesse intervalo, nosso trabalho é principalmente no nível deste mundo, difundindo a sabedoria da Kabbalah. Esse ato é totalmente espiritual. Através dele, ajuda-se outros a que se juntem a esse caminho, através de atos físicos; a pessoa ajuda a difundir espiritualidade neste mundo.

Autor: Rabbi Michael Laitman -Tradução do Inglês: Luiz Oliveira e Eduardo Franco

28 de jan. de 2009

O Primeiro Mandamento


por Yanki Tauber, baseado nos ensinamentos do Rebe
Bilhões de pessoas já ouviram falar dos Dez Mandamentos, e muitas delas podem citar pelo menos três ou quatro; de fato, pode haver alguns milhões que podem enumerar todos os dez, na ordem. Menos comum, no entanto, é o conhecimento de que estes dez pontos que encerram a mensagem de D’us aos homem pode ser lidos em duas direções: de cima para baixo, e de lado a lado.

O que quero dizer? Os Dez Mandamentos foram entregues a Moshê gravados em duas pedras – cinco mandamentos em cada uma – assim:

1)Eu sou o Senhor teu D’us…
2) Não terás outros deuses…
3) Não tomarás o nome de D’us em vão
4) Lembra-te do Shabat…
5) Honra teu pai e tua mãe…
6) Não matarás
7) Não cometerás adultério
8) Não roubarás
9) Não levantarás falso testemunho
10) Não cobiçarás… do próximo
Por que em duas tábuas? E por que os primeiros cinco Mandamentos em uma e os outros cinco em outra? (Cinco a cinco parece uma divisão justa, mas na verdade não é: primeiros cinco Mandamentos totalizam 146 palavras no hebraico original, os outros cinco, 26.) Um dos motivos dados pelos nossos sábios é que os cinco últimos mandamentos são na verdade uma reiteração dos primeiros cinco. Em outras palavras, temos de colocar estas tábuas lado a lado e ler a linha toda, assim:

1) Eu sou o Senhor teu D’us / Não matarás
2) Não terás outros deuses/ Não cometerás adultério
3) Não tomarás o nome do Senhor em vão / Não roubarás
4) Lembra-te do Shabat / Não levantarás falso testemunho
5) Honra teu pai e tua mãe / Não cobiçarás o que é do próximo
Isso significa que, em essência, há apenas cinco Mandamentos. "Não matarás" é outra forma de dizer "Eu sou o Senhor teu D’us"; a proibição contra o adultério é a proibição contra a idolatria; guardar o Shabat significa ser uma testemunha verdadeira; e assim por diante.

O Midrash explica as correlações de cada um deste cinco pares, mas estamos ficando sem espaço, portanto examinaremos apenas a conexão entre os Mandamentos 1 e 6. Por que "Não matarás" é o outro lado de "Eu sou o Senhor teu D’us"? Porque, dizem os Sábios, assassinar um ser humano é assassinar D’us:

A que isso é análogo? A um rei de carne e osso que entrou num país e colocou retratos de si mesmo, e fez estátuas de si mesmo, e cunhou moedas com a sua imagem. Após algum tempo, o povo do país derruba os retratos, quebra suas estátuas e invalida suas moedas, diminuindo assim a imagem do rei. Assim, também, aquele que derrama sangue reduz a imagem do Rei, como está escrito (Bereshit 9:6): "Aquele que derrama o sangue de um homem… pois à imagem de D’us Ele fez o homem."

Ora, existem assassinos que afirmam acreditar em D’us. E há pessoas que são totalmente contra o assassinato e alegam não acreditar num poder superior. Ambos estão errados.

Se você acredita realmente em D’us, é incapaz de matar. E se realmente acredita que tirar a vida de outro ser humano é errado – não somente porque você não tem meios ou motivo para fazê-lo ou tem medo de acabar na cadeia, mas porque reconhece o valor transcendente, inviolável da vida – esta é apenas uma outra maneira de dizer que acredita em D’us. Mesmo que você não seja um daqueles tipos religiosos que coloca sua crença nesses termos.

19 de jan. de 2009

A Pespectiva Mística do Bem e do Mal


Trecho do livro "God is a Verb" (Deus é um Verbo) - Rabino David Cooper.

O Universo pode ser visto como um imã metafísico: em um de seus pólos está o que denominamos bem e em outro o que denominamos mal. O bem é representado por D´us e o mal por Satan. Quanto mais nos envolvemos com certas atividades, mais nos aproximamos de D´us. O contrário, obviamente, também é verdade.
É importante ter em mente que estamos discutindo D´us e não Ein Sof. Ein Sof está situado além do bem e do mal; não devemos atribuir "bondade" a Ele. Se o fizéssemos, estaríamos excluindo o mal, e isto O tornaria deficiente -- o que Ele não é. Obviamente, seria tolice chamá-Lo de mal ou de bem. Dito de maneira simples, Ein Sof a tudo abarca, inclusive a totalidade do bem e do mal.
Em nossa realidade, nos termos mais simples, dizemos que o bem é tudo que nos aproxima de D´us e o mal é tudo que nos afasta d´Ele. Quando um pedaço de ferro cai sobre uma superfície com um imã por baixo, algumas variáveis determinam se ele será atraído para o lado positivo ou para o lado negativo do imã. Quão próximo ele está de cada polaridade? Quão forte é o imã? Quanta fricção (resistência) a superfície oferece? Qual é o contorno e textura do pedaço de ferro?
Poderíamos colocar perguntas semelhantes sobre nós mesmos. Quão próximos nos sentimos de D´us? Quão forte é a influência da consciência de D´us em nossas vidas? Quão fácil é o acesso à consciência da presença de D´us? Qual a quantidade de tempo que dedicamos a pensar sobre os significados mais profundos da vida? Até que ponto estamos condicionados por um comportamento pautado por hábitos que tornam nossa vida uma rotina inconsciente? Quando respondermos a estas perguntas, perceberemos quão conectados estamos ao imã da bondade.
Perceba que, até o momento em que ele é magnetizado, o pedaço de ferro, em si, não é nem positivo nem negativo. De acordo com nossa natureza, não somos nem bons nem maus. Nós simplesmente somos o resultado das influências acumuladas em nossas vidas, adicionadas à variável mais importante: nosso livre arbítrio. Podemos nos afastar ou nos aproximar das coisas, conforme nossas escolhas. Estas escolhas, é claro, irão influenciar nosso destino final.
Nada é estático, pois as forças do universo estão sempre em movimento, puxando e empurrando. A consciência mais alta, a luz do Divino, é uma poderosa fonte de atração. No entanto, ela é contrabalançada por uma influente força oposta. Alguns denominam esta força oposta de "impulso mau" (yetzer hara).
Nos seres humanos, o impulso mau dispõe de um vasto arsenal, que inclui a volúpia, a cobiça, o desejo de obter status, fama, fortuna, popularidade, posses, inteligência, talento e poder. Nenhuma dessas características é inerentemente má, mas cada uma delas tem um potencial de sedução capaz de nos atrair cada vez mais profundamente na direção de nossas estruturas egóicas e nos afastar cada vez mais de nossa conexão com o Divino.
A constante tensão entre forças opostas é uma lei universal. No magnetismo, elas oscilam entre o positivo e o negativo; no espaço, em cima e em baixo, à esquerda e à direita, para trás e para frente. No Oriente, este princípio é descrito como yin e yang. Na Cabalá ele é chamado de gevurot (poderes restritivos) e chasidim (poderes expansivos).
A dinâmica tensão entre gevurot e chasidim surge continuamente nos grandes temas bíblicos: Adão e Eva, Caim e Abel, Abraão e seu sobrinho Lot, Sarah e Hagar, Ishmael e Isaac, Lot e suas filhas, Esaú e Jacob, José e seus irmãos, e assim por diante. Em cada momento, o cabalista percebe a relação universal representada por um aspecto mais restritivo e outro mais expansivo. Este puxa-empurra cósmico está ligado à própria natureza da criação e é o princípio sobre o qual o bem e o mal estão alicerçados.

17 de jan. de 2009

A terra Prometida


O cabalista lê a Bíblia de uma maneira diferente. Ele sabe que este é um livro divino, codificado, e que lembra histórias que são sempre atuais para a humanidade. Uma história bíblica bem conhecida é a de Moisés, aquele que retirou o povo hebreu da escravidão.
A história conta que para salvar a vida de seu bebê, a mãe de Moisés deixou-o em uma pequena cesta às margens do rio Nilo. A filha do Faraó encontrou o bebê e acabou criando-o no palácio real, com todo o conforto. Um dia, já crescido, Moisés resolveu sair do palácio e ver o que se passava fora dele. Ao defender um escravo hebreu que era surrado violentamente por um egípcio, acabou matando o egípcio. E por isto teve que se afastar.
Durante o exílio, Moisés viveu em uma cidade vizinha. E foi lá que ele recebeu pela primeira vez a revelação de Deus. Moisés caminhava à luz do dia, em profundo estado meditativo, quando se deparou com uma sarça ardente. A sarça era um tipo de planta comum naquela região e era comum arbustos daquele tipo pegarem fogo devido ao calor. No entanto, este arbusto continuava a pegar fogo e jamais se consumia. Mantinha-se ileso. E foi assim que Moisés pela primeira vez viu a face de Deus.
É interessante observar que a primeira revelação de Deus a Moisés se deu através de uma planta comum, em uma situação comum, quando ele olhava para baixo. Normalmente temos a idéia de que uma revelação de Deus deveria se dar em uma grande aparição no céu, em uma noite magnífica. Mas Deus está em todo lugar, e para aquele que está preparado, tomado pela consciência da humildade (e ele olhava para baixo) esta revelação pode se dar a qualquer momento. Todo momento pode ser especial.
Naquele momento Moisés era eleito para libertar os hebreus da escravidão e a partir de então travou uma grande batalha espiritual contra o Faraó, até que conseguiu libertar seu povo, promovendo a abertura do mar.
A história é toda repleta de códigos. O Faraó, mencionado no texto, representa nosso ego exacerbado, que faz-nos esquecer que somos parte de um todo muito maior, e nos impele no desejo de receber só para nós mesmos. É a pura visão da casca. Tanto que os faraós, ao morrer, retiravam os órgãos e mumificavam o corpo, ou melhor, a casca do corpo.
O Egito é uma palavra-código que se refere a uma situação de escravidão à qual a grande maioria dos seres humanos está submetida. É o nosso comportamento repetitivo, caracterizado por padrões compulsivos, que nos afasta de uma vida significativa.
A Travessia do Deserto é o caminho longo, árduo e cheio de dificuldades, que percorremos para sair deste estado de escravidão do aparente e chegar a uma nova consciência.
Finalmente, a Terra Prometida é o estado de consciência elevada, que dá real sentido à nossa existência. Momento em que compreendemos nosso lugar nesta existência, em que atingimos o significado da palavra Amor. Neste estado não há espaço para o medo. Nesta dimensão compreendemos o valor de cada obstáculo com que nos deparamos. Cada um deles traz um significado a mais à nossa vida.
Este episódio nos ensina sobre uma possibilidade sempre atual de mudarmos nossa consciência. Sair do mundo da escravidão significa mergulhar em um mundo desconhecido, para uma travessia muito longa e difícil. Somente com um propósito muito claro é possível enfrentar os confrontos áridos deste deserto e encontrar os caminhos que levam a uma vida significativa.


Texto extraído do livro “Os Segredos da Cabala”, de Ian Mecler.

16 de jan. de 2009

A essência da sabedoria da Kabbalah


Por: Rabbi Yehuda Ashlag

A Kabbalah ensina a correlação entre causa e efeito de nossas fontes espirituais. Estas fontes se interligam de acordo com regras perenes e absolutas objetivando gols maiores - o entendimento do Criador por todas suas criações que existem neste mundo.
De acordo com a Kabbalah, ambos, a humanidade como um todo e cada uma das pessoas que a compõem devem alcançar o seu ponto mais alto na compreensão do objetivo e do programa da criação em toda a sua plenitude. Em cada geração houveram pessoas que por constante auto determinação e treinamento alcançaram determinados níveis espirituais. Em outras palavras, enquanto ainda subiam a escada, conseguiram chegar ao topo.
Esteja em quaisquer dos mundos, do micro ao macro, qualquer objeto material e suas correspondentes ações são controladas pelas forças espirituais que permeiam todo nosso universo. Pode-se representar figurativamente como se o universo se apoiasse sobre uma rede tecida por essas forças.
Para exemplificar, tomemos o menor dos organismos vivos, cujo único objetivo é manter a sua existência por um tempo suficientemente longo para procriar a próxima geração. Quantas forças e complexos sistemas agem neste organismo! E quantos destes sistemas o olho do homem e sua limitada experiência deixou de tomar conhecimento. Multiplicando estas forças pelo número enorme de criaturas vivas que existiram em nosso mundo - significando o universo e os mundos espirituais - obteremos apenas uma vaga e remota idéia sobre as forças e vínculos espirituais que nos controlam.
A grande variedade de forças espirituais podem ser imaginadas como dois sistemas iguais e interligados. A única diferença entre eles é que o primeiro sistema vem do Criador e desce através todos os mundos até chegar ao nosso. O segundo sai do nosso mundo e sobe todo o caminho de acordo com as regras já estabelecidas e que agiram sobre o primeiro sistema.
O primeiro sistema é chamado pela Kabbalah de "A Ordem da Criação dos Mundos e do Espírito". O segundo é chamado " A Compreensão ou os Passos da Profecia e Espirito". O segundo sistema supõe que aqueles que querem alcançar o pináculo deverão agir de acordo com as leis do primeiro sistema, e é exatamente o que é estudado na Kabbalah. Porém, no mundo espiritual o principal fator do descobrimento e entendimento não é o tempo, mas sim a pureza do espírito, do pensamento e do desejo.
No mundo material há muitas forças e fenômenos que não sentimos diretamente. Por exemplo, eletricidade, ondas magnéticas, etc. O efeito de suas ações, seus nomes, são corriqueiros até para as crianças. Apesar de nosso conhecimento sobre a eletricidade ser limitado, nós apreendemos a valer-nos deste fenômeno para suprir algumas de nossas necessidades. Nós o chamamos pelo nome com a mesma familiaridade como chamamos o pão de pão e o açúcar de açúcar.
Analogamente, todos os nomes na Kabbalah parecem dar-nos uma noção real (material) para um objeto espiritual. Mas se pensarmos a respeito, não é somente a respeito do objeto espiritual que não temos nem mesmo a mais vaga idéia; não temos a menor noção sobre o Criador em Si, assim como não temos noção sobre qualquer objeto, mesmo aqueles que sentimos com nossas próprias mãos.
O fato é que não sentimos o objeto em si, mas sim as nossas reações a sua ação e influência. Estas reações nos dão o que parece ser conhecimento, apesar de que o objeto em si, sua essência permanece oculta. E ainda mais, não conseguimos compreender a nós mesmos!! Tudo o que sabemos sobre nós mesmos restringe-se apenas as nossas ações e as nossas reações.
Ciência, como instrumento de pesquisa sobre nosso mundo é divida em duas partes; o estudo das propriedades da matéria e o estudo de sua forma. Em outras palavras não há nada em nosso universo que não consista de matéria e forma. Por exemplo, se tomarmos uma mesa, como combinação de matéria e forma, então a matéria é a madeira e o portador da forma é o formato de uma mesa. Um outro exemplo; a palavra mentiroso, onde a matéria é o homem que transporta a forma, a mentira.
A parte da ciência que se dedica ao estudo da matéria é baseada em experiência. Alicerçada nas experiências científicas, chegas-se a conclusões. Porém a parte da ciência que estuda a forma, sem a ligação com a matéria, em especial com as formas que nunca tiveram ligações com a matéria (por exemplo, comunismo como um ideal) não pode ser baseada em experiências. Isto porque, em nosso mundo, não ha tal coisa como forma sem matéria
A separação entre forma e matéria somente é possível em nossa imaginação. Portanto, neste caso, todas as nossas conclusões são baseadas apenas em premissas teóricas. Toda a alta filosofia pertence a esta categoria de ciência e a humanidade tem freqüentemente sofrido por causa das conclusões sem fundamento. A maioria dos cientistas contemporâneos desistiram de usar esta metodologia de estudo pois não ha certeza quanto a veracidade de suas conclusões.
Explorando o mundo espiritual o homem por si descobre que estes mesmos sentimentos são somente desejos divinos para que ele se sinta desta forma. Ele se sente como um objeto de existência isolada e não como uma parte integrada ao Criador, e que tudo no mundo que o circunda não passa de uma ilusão da ação das forças espirituais sobre nós.
Esclarecerei este ponto através de um exemplo:
Era uma vez um homem pobre que vivia num pequeno vilarejo. Ele tinha uma carroça com uma parelha de cavalos, uma casa e uma família. De repente um infortúnio se abateu sobre ele. Os cavalo caíram, a mulher e os filhos morreram e a casa desabou e, por causa de seus pesares e tristeza, ele morreu logo após. E aí a decisão a ser tomada na corte suprema; o que dar para esta alma sofrida e atormentada para assegurar a sua felicidade. Decidem então dar-lhe a impressão que está vivo, que tem sua família junto a si, sua casa e seus cavalos. Fazem com que ele sinta-se feliz com seu trabalho e com sua vida.
Estes sentimentos são sentidos da mesma forma como sentimos um sonho; tudo o que vivenciamos num sonho, durante o mesmo, aparenta ser verdadeiro. É somente nossos sentimentos que criam a imagem daquilo que nos circunda. Então como é que podemos distinguir ilusão da realidade....
Kabbalah como ciência mundana também é dividida entre estudo da matéria e da forma. Possui porém, uma qualidade notável que demonstra a sua superioridade sobre as demais metodologias científicas. Aquela parte que trata do estudo da forma sem matéria é totalmente fundamentada em controle experimental, de sorte que pode ser testada e verificada.
O Kabbalista, tendo ascendido ao nível espiritual do objeto estudado, se atina à todas as qualidades do objeto em questão. Donde, dentro dele, ele sente uma plena compreensão e pode tratar praticamente com os diferentes tipos de forma antes que de sua corporificação material. É como se ele estivesse observando todas nossas ilusões como um observador externo.
A Kabbalah, assim como qualquer outra ciência, vale-se de certos símbolos e terminologia para descrever objetos e ações. A força espiritual, o mundo, a sfira são chamadas pelo mesmo nome que é usado para o mesmo objeto controlado por esta força em nosso mundo. Já que toda força ou objeto material tem uma correspondente força ou objeto espiritual que controla suas ações, há um ajuste perfeito entre o nome utilizado no mundo material e sua raiz espiritual - a fonte. Donde, dar um nome à objeto espiritual é somente possível à um Kabbalista que tenha alcançado um alto nível de percepção.
Alcançando o mesmo nível do objeto espiritual e ele pode ver as influências e a maneira que este influi em nosso mundo. Os Kabbalistas escrevem seus livros e transmitem o seu conhecimento usando esta linguagem. Essa linguagem é extremamente precisa. É baseada na fonte espiritual do objeto material e não pode ser alterada. A ligação entre o objeto e sua fonte espiritual e imutável. Esta forma é bem diferente do nosso uso quotidiano da linguagem. Nossa língua mundana, de uso quotidiano, está gradualmente perdendo sua precisão, pois é ligada somente à forma externa. A simples compreensão primária da linguagem não é o bastante. Mesmo se soubermos o nome de um objeto material de nível mais baixo, ainda assim não conseguiríamos entender sua forma espiritual mais elevada. Somente se soubermos a sua forma espiritual podemos compreender e ver a sua implementação material; a sua ramificação.
Isto nos traz a conclusão. Primeiramente é essencial compreender a fonte espiritual do objeto material. Temos que estar ciente de sua natureza e propriedades. Somente então podemos passar às ramificações em nosso mundo e estudar a sua interação. Esta é a única forma de verdadeiramente compreender a linguagem da Kabbalah.
Porém aí então levanta-se uma pergunta natural. Como pode um principiante dominar esta ciência quando não consegue nem mesmo compreender seu professor. A resposta é muito simples. Somente é possível quando nos alçamos espiritualmente acima deste mundo. E isto é somente possível se nos livrarmos de todos os traços de egoísmo material e aceitarmos os valores espirituais como os únicos. Somente o desejo e paixão pelo espiritual em nosso mundo; esta é a chave para o mundo mais elevado.

15 de jan. de 2009

Não há ninguém além do Criador


Por: Rabbi Baruch Ashlag


Está escrito que "não há ninguém além do Criador", o que significa que não há nenhum poder no mundo capaz de fazer alguma coisa contra Sua Vontade.
E se o homem vê que há coisas neste mundo, que negam o domínio do Alto, é porque Ele quer assim.
E considera-se uma correção, chamada "a esquerda rejeita e a direita acrescenta", significando que aquilo que o lado esquerdo rejeita é considerado uma correção. Isso significa que há coisas no mundo, que por princípio estão destinadas a desviar a pessoa do caminho correto, e mantê-la distanciada da santidade.
O benefício dessas rejeições é que através delas a pessoa recebe a real necessidade e um completo desejo pela ajuda de Deus, pois vê que de outra forma está perdida.
Não apenas ela não progride em seu trabalho, como vê ainda que regride, e que lhe falta a força para sequer observar a Torah e as Mitzvot, mesmo que não seja em Seu nome. Porque somente se superar genuinamente todos os obstáculos, acima da razão, ela pode observar a Torah e as Mitzvot.
Mas nem sempre ela tem a força para ir acima da razão, porque se ocorresse o contrário, Deus proíba, ela seria forçada a se desviar do caminho do Criador, e não agir pelo Seu nome.
A pessoa sempre sentiu que o fragmento é maior que o total, o que significa que há mais descidas que ascensões. Ela não vê uma finalidade para esses apuros, e sempre se sente excluída da santidade, porque vê que é difícil para ela observar até mesmo uma insignificância, se não agir acima da razão, mas nem sempre ela é capaz de agir assim. E qual será o fim de tudo isso?
Então essa pessoa entende que ninguém pode ajudá-la, a não ser o próprio Deus. Isso faz com que ela dirija um pedido sincero ao Criador para que abra seus olhos e coração, e a aproxime da eterna adesão a Deus. Ela compreende, então, que todas as rejeições que ela experimentou vieram do Criador.
Isso significa que as rejeições que ela experimentou não aconteceram por sua culpa, ou por que não era capaz de prosseguir, mas sim porque essas rejeições são para aqueles que verdadeiramente querem se aproximar de Deus. E para que essa pessoa não se satisfaça com apenas um pouco, mais precisamente, para que não permaneça como uma criança sem conhecimento, ela recebe ajuda do Alto, de modo a que não seja capaz de dizer que "graças a Deus, ela observa a Torah e pratica boas ações, e portanto, o que mais ela poderia pedir?"
Só se essa pessoa tiver um verdadeiro desejo, ela receberá ajuda do Alto. E lhe são mostradas constantemente as suas faltas no estado presente, isto é, são-lhe enviados pensamentos e opiniões que trabalham contra seus esforços. Isto é para que ela veja que ela não está unificada a Deus. E quanto mais ela supera, mais percebe o quão longe da santidade ela se encontra, por comparação aos outros, que se sentem unificados a Deus.
Mas essa pessoa, por outro lado, sempre tem suas queixas e exigências, e não consegue justificar o comportamento do Criador, nem o modo como Ele age com relação a ela. E isso vai lhe provocando dor, porque ela não se sente unificada ao Senhor, até que chegue a sentir que não tem participação nenhuma na santidade.
E embora ela seja ocasionalmente despertada pelo Alto, e isso momentaneamente a reavive, logo ela cai novamente em um abismo. Porém, é isso que lhe faz compreender que somente Deus pode ajudar e realmente atraí-la para mais perto.
A pessoa sempre deve tentar se aproximar do Criador, isto é: tentar fazer com que todos os seus pensamentos se refiram a Ele. Isso quer dizer que mesmo que ela esteja no pior estado, do qual não possa haver uma grande queda, ela não deve abandonar Seu domínio, isto é, não deve pensar que há outra autoridade que o afaste de entrar na santidade, e que tenha o poder de beneficiar ou ferir.
Portanto a pessoa não deve pensar que é o poder do Outro Lado (sitra achrah), que não lhe permite praticar boas ações e seguir os caminhos de Deus, mas sim, que tudo isso é determinado pelo Criador.
Como dizia o Baal Shem Tov, aquele que afirmar que há outro poder no mundo, isto é, conchas, está num estado em que "serve a outros deuses", ainda que não pense, necessariamente, em cometer o pecado da heresia; mas se ele pensa que há outra autoridade e força, que não o Criador, desse modo ele está cometendo um pecado.
Além disso, aquele que diz que o homem tem sua própria autoridade, ou seja, aquele que diz que ontem ele mesmo não quis seguir os caminhos de Deus, esse também se considera como tendo cometido o pecado de heresia. Isso significa que ele não acredita que somente o Criador conduz o mundo.
Quando a pessoa comete um pecado, certamente deve se lamentar por isto e se arrepender por tê-lo cometido, mas aqui também nós devemos colocar a dor e a lástima na ordem correta: aquilo a que ela atribuir a causa do pecado, é nesse ponto que ela deve se arrepender.
A pessoa então deve se arrepender e dizer: "eu cometi esse pecado porque o Criador me lançou abaixo da santidade, em um lugar imundo, no lavatório, onde está a imundície". Isso é o mesmo que dizer que o Criador lhe deu um desejo e um apetite por se divertir e respirar o ar de um lugar mal-cheiroso. (E também se pode dizer, como está nos livros, que às vezes o homem encarna no corpo de um porco, e então ele recebe um desejo e o apetite por manter-se com coisas que ele já teria decidido que eram lixos, mas agora ele novamente quer se reavivar com elas).
E também, quando a pessoa sente que está em um estado de ascensão, e sente algum prazer no trabalho, ela não deve dizer: "agora eu estou em um estado em que compreendo que é valioso servir a Deus". Melhor seria que soubesse que agora o Senhor a notou, e por isso a atraiu para Si, o que é a razão pela qual ela sente prazer no trabalho. Ela deve tomar o cuidado de nunca abandonar o domínio da santidade, nem dizer que há outra força operando, além do Criador. (Mas isso significa que a questão de encontrar favor aos olhos do Senhor, ou o oposto, não depende do homem, mas sim, que tudo depende de Deus. E o homem com sua mente superficial, não consegue compreender por que o Senhor agora gosta dele e após, não gostará).
E igualmente quando a pessoa lamenta que o Criador não a traz para perto, ela também deveria ter cuidado para não se queixar por ter sido distanciada do Criador, pois fazendo assim ela se torna um recipiente para seu próprio benefício, e aquele que recebe é separado do Criador. Melhor seria que ela lamentasse o exílio da Presença Divina, isto é, por infligir tristeza à Presença divina.
A pessoa deveria tomar como exemplo a ocasião em que algum pequeno órgão está dolorido. A dor é sentida principalmente no coração e na mente, que são a generalidade do homem. E certamente a sensação de um simples órgão não se assemelha à sensação da completa estatura da pessoa, onde a maior parte da dor é sentida.
Igualmente é a dor que a pessoa sente quando ela é distanciada do Senhor, já que o homem é apenas um órgão da Presença Divina, pois a Presença Divina é a alma de Israel em geral. Assim a sensação de um simples órgão não se assemelha à sensação da dor em geral. Isso significa que a Presença Divina lamenta que haja partes dela mesma que estejam distanciadas, e que ela não pode ajudar. (E esse pode ser o significado das palavras: "quando o homem lamenta, a Presença Divina diz: isto está mais leve que a minha cabeça"). E se o homem não relaciona a ele mesmo a tristeza de estar distanciado de Deus, ele é salvo de cair na armadilha do desejo de receber para si mesmo, que é a separação da santidade.
O mesmo se aplica quando alguém se sente um tanto mais próximo da santidade. Quando ele está feliz de ter merecido favor aos olhos do Senhor, ele precisa dizer que o centro de sua alegria é que agora há alegria na Presença Divina, por ter conseguido trazer seu próprio órgão para mais perto, e não rejeitá-lo.
E o homem se alegra por ter sido dotado com a capacidade de agradar à Presença Divina. Do mesmo modo, a alegria que um indivíduo sente, é apenas uma parte da alegria que o total sente. E através desses cálculos ele perde seu individualismo, e evita cair na armadilha do Outro Lado, que é o desejo de receber para si mesmo.
Todavia, o desejo de receber é necessário, pois é isso o que constitui uma pessoa, e nada existe numa pessoa além do desejo de receber que lhe é atribuído pelo Criador. De qualquer forma, o desejo de receber prazer deve ser corrigido para adquirir a forma de doação.
Isso quer dizer que o prazer e a alegria, sentidos pelo desejo de receber, devem ter a intenção de transmitir contentamento ao Alto, em razão do prazer que acontece abaixo. Pois esse foi o propósito da criação, de beneficiar Suas criações. E isso é chamado à alegria da Presença Divina acima.
Por essa razão, o homem deve buscar conselho sobre como ele pode causar contentamento acima. E certamente, se ele recebe prazer, o contentamento será sentido acima. Assim, ele deve ansiar por estar sempre no palácio do Rei, e por ter a capacidade de lidar com os tesouros do Rei. E isso certamente causará contentamento acima. Conclui-se que seu inteiro anseio deve ser em prol do Criador.

14 de jan. de 2009

Conflito entre o Corpo e a Alma.


Todos os conflitos humanos derivam da luta constante entre o corpo e a alma. A tensão entre o material e o espiritual. Porque será que isto acontece?
O Eterno distinguiu duas fases quando criou o corpo e alma, o corpo, tirando do pó da terra e a alma insuflando no corpo o sopro e a alma da vida. Porque Ele criou nosso corpo e nossa alma separadamente, ao contrario das outras criaturas? Para que possamos sempre reconhecer que existem duas forças em nossas vidas, a força material e a força espiritual.
A parte material é inferior, assim como o pó da terra, já a parte espiritual vem de D-us.
Antes do pecado de Adam e Hava (Adão e Eva ) , o corpo e a alma era unidos, por isto é dito “ Não tinham vergonha de sua nudez” ( Gênesis 2:25 ), pois era tão inocente como a nudez de um recém-nascido. No entanto o primeiro pecado foi como uma espécie de autoconsciência. Agora temos um “eu” egoísta ( o corpo ) separado da vontade e intenções divinas ( a alma ) .
Uma dimensão da vida humana que era única dividiu-se em duas: nossos desejos materiais e nossos desejos espirituais. Desde então se incluiu em nossa missão de vida a Restauração da Harmonia entre o corpo e a alma.
Porque D-us criou a possibilidade de tal conflito? Porque a alma precisa ser desafiada e o corpo purificado. Ao final este conflito irá possibilitar que a alma e o corpo percebam que juntos são melhores, do que sozinhos.
É exatamente a resistência do corpo que revela a criatividade da alma, por outro lado, é a orientação da alma que permite que o corpo utilize sua energia para o bem.
O homem nunca poderá ser feliz se não alimentar a alma como faz com o corpo!

13 de jan. de 2009

Multiplicando Pães

Por Rabino Nilton Bonder

Crise, palavra pessimista, foi trocada nos anos setenta pelo significado chinês de "oportunidade", palavra otimista. No entanto, o pessimismo e o otimismo são lados de uma mesma moeda: o desejo de controle. O que não queremos aceitar é que uma crise é convulsão, é involuntária, é fronteira entre nossa atitude e a vida.

A crise é percebida como escassez e se dá mais na relação com a vida do que na realidade. Esquecemos que a vida é em si abundância, um fenômeno para além do descrito por Darwin. Não é a competição que faz a vida, é o compartilhar; não é a escassez que determina o vencedor, mas a capacidade de se relacionar com o meio ambiente de uma forma abundante.
A ecologia, por exemplo, martela a idéia da escassez. Verdade que a mentalidade da falta favorece a contenção, mas também o desejo por acumulo, a competição e o foco na míngua. A penúria é sempre localizada na insuficiência do recurso e nunca na relação de insatisfação. E sobre isso muito tem a dizer o profeta bíblico. Há 25 séculos disseram que a grande evolução espiritual seria de ordem econômica e ética. E se daria na mudança de foco da escassez para a abundância. Não seria a oferta e a demanda que ditaria os valores, mas os valores internos que regulariam a relação com a oferta e a demanda do momento. E eles nos ofereceram um "case", um modelo experimental:

O profeta Eliseu se viu com cem homens tendo apenas vinte pães. Seu servo disse: "Como hei de pôr isto diante de cem homens? E disse ele: Dá para que comam; comerão, e sobejará". Comeram e sobrou.

O racionalista lê esta passagem como piedosa desprovida de realidade. Já o crente a lê como uma prova de milagre, de que a realidade é moldável à moral e às expectativas de bondade. Ambas atendem ao desejo de controle e não abarcam o sentido do profeta. O profeta não produz mais pães. Só existem vinte. O que o ele promove é uma relação distinta com a vida. Para que vinte pães alimentem cem homens é necessária uma nova relação com estes recursos. Se o seu foco for a escassez irão matar uns aos outros. O que eles precisam é descobrir alternativas que resgatem a abundância. O profeta não interfere na realidade de oferta e demanda, mas estabelece uma nova relação com o recurso, uma nova economia. A fartura dessa nova relação se dá em ativos de natureza diferente. Há ativos do tipo "soma-zero" que não se reduzem e escasseiam na divisão. Óbvio isto não ocorre com a riqueza ou o poder, mas sim com o conhecimento, a confiança, a amizade, a gentileza e o amor. Esses artigos não rareiam com a divisão, ao contrário, se multiplicam. Só fazendo uso deste tipo de comodities vinte pães podem satisfazer e sobrar para cem homens. Somente elas poderão incluir uma nova metade esquecida da população mundial que quer desfrutar de abundância já que isso não se fará pelos recursos, mas por uma nova relação com a vida.

Nossa relação é equivocada. Olhamos o espaço e o percebemos escasso. A terra não é o lote, o hectare; mas a relação com a vida. Olhamos nosso tempo e o percebemos escasso. Os momentos não são as horas, os dias, a longevidade; mas as escolhas de cada instante. Não há escassez na interação que o espaço promove e não há escassez nas escolhas que o tempo permite.

As crises são advertências daquilo que é, mas não queremos aceitar. Não se trata de conformismo, mas economia. A multiplicação dos pães não virá nem por ilusão ou hiper-realismo. Estará sempre disponível à espécie que souber sair da zona de conforto e se guiar pela abundância, que é por onde a vida passa.


12 de jan. de 2009

Rabi Shneor Zalman


Rabi Shneor Zalman de Liadi foi o fundador da Chassidut Chabad, movimento que se revelou num dos mais fortes e dinâmicos ramos do chassidismo.
Este movimento fundado na Lituânia em 5533 (1773) cresceu muito além das fronteiras deste centro outrora poderoso da vida judaica, e ganhou partidários no mundo inteiro.
Rabi Shneor Zalman era um descendente direto do Maharal de Praga. Seu bisavô vivia em uma aldeia em Posen. A família se deslocou para o leste, migrando através da Galícia e da Polônia, fixando-se em Vitebsk, um centro florescente de erudição talmúdica e de Torá.
Foi ali que seu pai, Rabi Baruch, nasceu e se criou no espírito e na tradição do estudo. Mais tarde mudou-se para Liozna, próximo da cidade de Lubavitch, que viria a ser famosa como a sede da dinastia dos descendentes do Rav. Neste local nasceu Rabi Shneor Zalman onde recebeu sua instrução primária. Desde criança demonstrou uma inteligência extraordinária e devoção aos seus estudos.
A fim de desenvolver mais a erudição de seu filho, Rabi Baruch levou-o a um renomado mestre da época, Rabi Yissachar Ber de Cobilnik, que vivia em Lubavitch. Sob a tutela de Rabi Yissachar Ber, o jovem erudito atravessou o "mar do Talmud" em todas as direções e se familiarizou com a Cabalá, o lado esotérico da sabedoria da Torá tradicional.
Em seu tempo livre, o garoto aumentava ainda mais os seus conhecimentos através do estudo de Ciências e Matemática. Não passou muito tempo e o Rabi Yissachar Ber mandou chamar o Rabi Baruch e disse, para alegria do mesmo: "Não há nada mais que eu possa ensinar ao seu filho; o seu conhecimento já me ultrapassou."
Rabi Baruch levou Shneor Zalman para Vitebsk. O menino de doze anos ganhou reconhecimento imediato e fama de gênio e foi aceito em meio aos grandes eruditos da cidade.
Anos se passaram e um homem rico o selecionou para ser seu genro e o sustentou a fim de que pudesse devotar sua atenção ao estudo exclusivo da Torá. Numerosos relatos daqueles anos atestam a insaciável sede de saber de Rabi Shneor Zalman.
Aos vinte anos, esse jovem brilhante, com o consentimento de sua esposa, deixou lar e família a fim de procurar a realização de um anseio de sua alma. Apesar de todo seu conhecimento e sabedoria, sentia que lhe faltava um elemento da experiência religiosa-judaica, que não poderia ser captada na solidão das quatro paredes de seu próprio estúdio.
Dois centros de estudo e liderança judaica disputavam sua atenção: Vilna, a sede principal da erudição talmúdica e fortaleza da oposição ao jovem, crescente ao movimento chassídico, e Mezritch, a sede do Rabi Dov Ber, o famoso Maguid, herdeiro da ideologia de Rabi Yisrael Báal Shem Tov e da liderança do movimento chassídico.
Desde o início, Rabi Shneor Zalman compreendeu que a atmosfera sóbria e racionalista de Vilna e seus eruditos, encabeçados pelo Gaon, Rabi Eliyháhu, não podia oferecer-lhe aquilo que procurava. Rabi Shneor Zalman sentia que sua necessidade não era de instrução talmúdica, mas de orientação em Avodá (como servir D'us). Por isso decidiu tentar Mezritch, onde um novo mundo o chamava, um mundo que ensinava seu povo como rezar.
Cheio de esperança e expectativa, mas com poucos recursos materiais, partiu para a longa jornada. A fim de pagar a viagem, aceitava quaisquer tarefas que aparecessem, rachando lenha e trabalhando nos campos. Mesmo assim, precisou fazer a maior parte do caminho para Mezritch a pé.
A primeira impressão do círculo interno de discípulos reunidos em torno do Rabi Dov Ber de Mezritch não foi muito encorajadora. Ele esperava uma grande academia transbordante de personalidades brilhantes...Ao invés disto, encontrou um grupo de pessoas reservadas e modestas, onde, à primeira vista, pareciam não possuir algo digno de sua procura. Ele já se preparava para partir, quando seus olhos foram abertos para a verdadeira natureza do Mestre e de sua esfera de alunos. Ao ir se despedir do Mestre, antes de retornar a Liozna, os olhos do Rabi Dov Ber o encontraram e penetraram intensamente em sua alma, explorando e avaliando cada uma de suas qualidades.
Após alguns minutos de silêncio, o Mestre não só lhe disse o que estava em sua mente, mas sem ter sido perguntado, deu a Rabi Shneor Zalman respostas espantosamente simples, porém, convincentes, a algumas indagações do teste que o jovem erudito preparara, a fim de assegurar a si próprio um mestre condigno. Profundamente impressionado, Rabi Shneor Zalman suplicou ser admitido no círculo dos discípulos de Rabi Dov Ber.
Um novo mundo desdobrou-se diante de seus olhos ávidos à medida que absorvia as discussões diárias do Maguid sobre os ensinamentos do Báal Shem Tov.
O filho de Rabi Dov Ber, Rabi Avraham, conhecido como "Malach", anjo, foi seu guia para essa mais alta esfera de sabedoria e conhecimento. Em troca, Rabi Shneor Zalman o instruía na área da Halachá - a parte maior da literatura talmúdica e rabínica que trata da Lei Judaica.
Rabi Shneor Zalman absorveu os ensinamentos da Chassidut e satisfez os anseios de sua alma, que o fizera deixar o lar e a família. Jamais lamentou ter optado por Mezritch à Vilna.
Rabi Dov Ber expôs a todos as extraordinárias qualidades do Rav e o revelou como "uma luz em Israel". Ele ordenou a Rabi Shneor Zalman, que contava com vinte e cinco anos, que reescrevesse o Código da Lei Judaica, de modo a incluir as decisões mais recentes. Cerca de duzentos anos haviam-se transcorrido desde que o Rabi Yossef Caro publicara sua obra-mestra, o Shulchan Aruch, e através desse período, gerações de grandes sábios foram acrescentando e esclarecendo o que viria a ser a palavra final na discussão da Lei Judaica.
Rabi Shneor Zalman deu plena consideração a esses duzentos anos de comentários sobre o Shulchan Aruch, e por meio de cuidadosa edição, apresentou o Código de Lei Judaica de forma precisa e prática que acabou sendo reconhecido não só pelo mundo chassídico, mas por eruditos de todas as correntes.
Durante os anos de luta e intensas ações em prol da melhoria da vida espiritual e das condições econômicas dos seus correligionários, o Rav desenvolveu a sua magnífica filosofia da Chassidut Chabad. Ele colocou a idéia do Tsadic, justo, como um guia espiritual, um mestre-professor e não alguém com poderes ou um milagreiro.
O chassid devia se treinar para uma vida de fé e avodá (serviço) que o levaria ao mais alto nível de ChaBaD, acróstico de Chochmá (Sabedoria), Biná (Entendimento) e Daat (Conhecimento), formando um elo entre o Céu e a Terra. Sobre esse pensamento básico, Rabi Shneor Zalman construiu a estrutura da ideologia Chabad. O homem completo serve a D'us com a mente, o coração e a ação, um conectado e completando o outro: a mente compreende, o coração sente e a mão executa.
A essência dos ensinamentos do Rabi Shneor Zalman pode ser encontrada em sua contribuição maior para a literatura rabínica: o Licutei Amarim, mais conhecido como o Tanya (chamado assim pela primeira palavra desse tratado). Ele contém um esboço conciso do seu sistema filosófico como um modo de vida, e atesta seu vasto conhecimento, tanto exotérico como esotérico, de nossos sábios. O Tanya foi e continua sendo um texto sagrado para os milhares de seguidores de Chabad.
Rabi Shneor Zalman, conhecido pelos adeptos de Chabad como o "Alter Rebe" foi também autor de muitas outras obras clássicas da literatura Chabad.
Com a rápida expansão do movimento chassídico sob sua liderança, seus oponentes recorreram às medidas mais extremas para solapar seu trabalho. Ele foi denunciado ao governo russo como um traidor e herético, uma acusação levantada também contra outros Rabis chassídicos.
Em 1798, Rabi Shneor Zalman foi preso e levado para a capital, S. Petersburgo, onde foi atirado à masmorra, para enfrentar julgamento por traição e atividades políticas subversivas.
Numerosos são os relatos sobre sua sagacidade, presença de espírito e majestosa postura que atestam a impressão causada sobre a comissão czarista responsável para julgar o seu caso. O Czar Paulo I, incógnito, e outros homens da mais alta posição social e política, visitaram-no a fim de testar a sua sinceridade e visualizar sua sabedoria. Em 19 do mês hebraico de Kislêv, de 5559 (1798), foi libertado por ordem expressa do Czar. Essa data, até nossos dias, tem sido comemorada entre os chassidim.
Menos de dois anos após a primeira tentativa, a oposição extremada denunciou novamente o Rabi, sob falsas acusações. Novamente foi levado à capital russa, encarcerado e novamente libertado com a aprovação do Czar Alexandre I, que partilhava da admiração do seu predecessor pelo venerável líder do movimento chassídico lituano, consciente de sua inocência.
Durante a guerra russo-francesa, o Rabi aliou-se à causa russa, e por meio da cooperação de seus seguidores, prestou grandes serviços ao Alto Comando russo. Outros líderes chassídicos manifestaram-se ruidosamente em suas aclamações a Napoleão, que prometia liberdade e igualdade a todos os oprimidos, inclusive aos judeus. Mas Rabi Shneor Zalman percebeu que a disseminação da influência francesa poderia trazer danos morais maiores do que toda a hostilidade do regime czarista.
Acompanhado por sua família e alguns dos seus discípulos mais chegados, saiu à frente dos exércitos franceses. Embora tenha escapado da captura por diversas vezes, seu frágil corpo não resistiu às tremendas dificuldades da fuga e acabou ficando gravemente enfêrmo, falecendo em Piena, pequena aldeia perto de Cursk, em 24 de Tevet de 5573 (1813). Foi sepultado no cemitério judeu em Hadits, próximo à Poltava.
Costuma-se dizer: "Em Vilna eles sabiam como estudar; em Mezritch eles sabiam como rezar."
Rabi Shneor Zalman, o santo sábio de Liadi, sabia como fazer ambas as coisas. Ele construiu uma ponte sobre a brecha existente entre coração e mente com a sua síntese magistral da emoção e do intelecto dentro da estrutura da ideologia Chabad.

11 de jan. de 2009

A Base para um Mundo Ideal


Imagine um mundo no qual não houvesse senso de certo e errado. Um mundo sem o conceito de justiça, sem um sistema de leis, sem vida familiar, sem valores éticos ou morais. Isto não parece apavorante? Talvez até um pouco real? Tal sociedade já existiu uma vez. Egoísta, guerreira, cruel. Um sociedade preparada para se auto-destruir quatro mil anos atrás, no Grande Dilúvio.
Sem este legado, um novo mundo nasceu, começando com Noé e seus filhos.
D’us confiou a eles um Código de Vida, um conjunto de leis sobre as quais uma nova civilização poderia ser construída.
Este código de sete leis fundamentais é de tão longo alcance que ele fornece estrutura e propósito para a vida todo o tempo, guiando o homem para perceber o seu potencial mais elevado como um ser criado à imagem de D’us.
1. Crer em D'us
Não adorar ídolos
O homem, a criatura mais fraca, é cercado por forças de vida e morte muito maiores que ele próprio. Confrontado com a vastidão destas forças universais, o homem pode muito bem tentar servi-las a fim de se proteger e melhorar seu quinhão.
A essência da vida, entretanto, é reconhecer o Ser Supremo que criou o Universo — acreditar n’Ele e aceitar Suas leis com temor reverencial e amor. Devemos nos lembrar de que Ele conhece todas as nossas ações, recompensado a bondade e punindo o mal. Somos dependentes d’Ele, e somente a Ele devemos fidelidade. Imaginar que poderia haver qualquer outra força que poderia nos proteger ou prover as nossas necessidades não só é tolice, mas perverte o propósito da vida e, como a história tem mostrado, liberta potencialmente poderosas forças do mal em nós mesmos e no mundo.
2. Respeitar D'us e louvá-Lo
Não blasfeme Seu Nome
Quando nos desapontamos com a vida, quando as coisas não andam como deveriam, é muito fácil apontar o dedo acusador e culpar todo mundo... tudo... até mesmo D’us. Lealdade e confiança são fundamentais na vida. Culpar D’us, amaldiçoar ou amaldiçoar outros em Seu Nome é um ato de deslealdade — similar à traição. É um ato que mina a base de toda a ordem e estabilidade sobre a qual uma sociedade justa deve se manter. D’us certamente é justo, muito embora uma mente limitada não possa compreendê-Lo, já que Ele é infinito.
3. Respeitar a vida humana
Não mate
O primeiro registro da desumanidade contra o homem começa com a história de Caim e Abel. O homem é na verdade o guardião de seu irmão. A proibição contra o homicídio (incluindo o aborto) vem proteger o homem da tendência animal que existe dentro dele. O homem agressor nega a santidade da vida humana e, em última análise, ataca D’us, que nos criou à Sua imagem.
4. Respeitar a família
Não cometa atos sexuais imorais
A Bíblia Judaica afirma: "Não é bom que o homem esteja só"; então D’us fez uma companheira para Adam e no casamento "Ele os abençoou". Em uma família saudável a criatividade do homem encontra expressão significativa. Famílias sadias são a pedra angular de comunidades, nações e sociedades sadias. As nações que permitiram a imoralidade — adultério, zoofilia, sodomia, incesto, etc. — nunca duraram muito. A imoralidade sexual é o sinal de uma decadência interior que gera uma sociedade cruel, trazendo confusão ao plano de vida Divino.
5. Respeitar os direitos e propriedades alheios
Não roube
Visto que nosso sustento vem de D’us, deveríamos procurar obtê-lo honestamente, com dignidade, e não por meio de meios enganadores. Violar a propriedade alheia, roubar ou enganar, é um ataque essencial sobre a humanidade do indivíduo. Isto gera anarquia, mergulhando a humanidade nas profundezas do egoísmo e crueldade. Foi por este pecado, acima de todos, que o Dilúvio foi trazido sobre o mundo.
6. Criar um sistema judicial
Persiga a justiça
Um sistema legal robusto e saudável, administrando justiça corretamente, cria uma sociedade digna da bênção de D’us. Estabelecer um sistema de juízes, tribunais e oficiais para manter e impingir a lei é uma responsabilidade de longo alcance. Este preceito traduz os ideais de nossa vida pessoal numa ordem formal para a sociedade em geral. É a extensão e garantia de todas as leis precedentes.
7. Respeitar todas as criaturas
Não coma a carne de um animal enquanto este ainda vive
D’us deu ao homem "domínio sobre o peixe, a ave, o gado e sobre toda a terra". Nós somos os guardiões da criação de D’us. Em última análise, nossa responsabilidade se estende além da nossa família, além até da sociedade, para incluir o mundo da natureza. Comer carne tão fresca que o animal ainda esteja vivo pode ser saudável, mas é cruel, até bárbaro, o que demonstra uma insensibilidade decadente à dor alheia. Esta lei é a pedra de toque, se você quiser, que mede como as outras seis leis estão sendo observadas. Quando o homem cumpre o seu potencial, toda a criação é cultivada e elevada para realizar esta meta. Isto transforma o mundo num lugar belo onde D’us pode habitar.

10 de jan. de 2009

Qual é o propósito da vida?



Por Rabi Nissan David Dubov, Diretor de Chabad-Lubavitch de Wimbledon, Inglaterra - baseado nas obras do Rebe

Todos desejamos levar uma vida significativa. Mas por que estamos vivendo? O que estamos fazendo neste mundo? Para encontrar a resposta a essa questão fundamental, devemos procurar no próprio livro da vida – a Torá, que é chamada Torá Chaim (Torá Viva). A palavra “Torá” significa “instruções” ou “orientação”, pois a Torá é nosso guia na vida. Ela nos faz constantemente cônscios de nossos deveres nos fornecendo uma verdadeira definição de nosso propósito, nos mostrando os caminhos e meios de atingirmos esta meta.
A CRIAÇÃO DO HOMEM
A Torá inicia com Bereshit. Quando Adam foi criado, o Criador informou-o imediatamente de seus poderes e revelou-lhe o propósito de sua vida:
“Enche a terra e subjuga-a; domina sobre o peixe do mar e a ave dos céus, e todo animal que se move sobre a terra.” (Bereshit 1:18)
O homem recebeu o poder de conquistar o mundo inteiro e dominá-lo. Na terra, mar e ar, e foi conclamado a fazê-lo; esta foi sua tarefa.
Como esta “conquista do mundo” deveria ser feita, e qual o propósito e verdadeiro significado disso?
Nossos Sábios ensinam que quando D’us criou Adam, sua alma – sua imagem Divina – permeou e irradiou todo seu ser, por isso ele se tornou dominante sobre toda a criação. Todas as criaturas se reuniram para servi-lo e coroá-lo como seu criador. Porém Adam, mostrando-lhes seu erro, disse: “Vamos todos venerar D’us, nosso Criador!”
A “conquista do mundo”, dada ao homem como sua tarefa e missão na vida, deveria elevar e refinar toda a natureza, incluindo as feras e os animais domésticos, ao serviço da verdadeira humanidade; a humanidade permeada e iluminada pela imagem Divina – pela alma, que é realmente uma parte do D’us acima – para que toda a criação percebesse que D’us é nosso Criador.
Desnecessário dizer, antes que um homem saísse para conquistar o mundo, ele deve primeiro conquistar a si mesmo e seu próprio ego, por meio da subjugação da parte “terrena” e “animal” em sua própria natureza. Isso é conseguido através de ações que estejam de acordo com as diretivas da Torá – o guia prático para a vida diária – para que o material seja permeado e iluminado com a luz do D’us Único, nosso D’us.
D’us criou um homem e sobre esta única pessoa na terra Ele impôs este dever e esta tarefa. Aqui então está a profunda, porém clara diretiva, de que cada homem – toda e cada pessoa – é potencialmente capaz de “conquistar o mundo”. Se uma pessoa não cumpre esta tarefa e não utiliza seus inestimáveis poderes Divinos, isso não é apenas uma perda ou falha pessoal, mas algo que afeta o destino do mundo inteiro.
UMA PESSOA PODE MUDAR O MUNDO
Um dos principais aspectos na criação do homem é que este foi criado como um único ser, ao contrário de outras espécies, criadas em grandes números.
Isso indica enfaticamente que um único indivíduo tem a capacidade de levar toda a criação à plenitude, como foi o caso com o primeiro homem, Adam. Ele chamou todas as criaturas do mundo para reconhecerem a soberania de D’us, com o grito: “Venham vamos nos prostrar e ajoelhar perante D’us nosso Criador!” Pois é somente por meio da “prostração” – a auto-abnegação – que um ser criado pode se apegar, e se unir, com o Criador, dessa maneira atingindo a mais plena realização.
Os Rabinos nos ensinam que Adam foi o protótipo e exemplo para cada indivíduo seguir. “Por este motivo o homem foi criado único, para ensinar que ‘uma pessoa é equivalente ao mundo inteiro’”. Isso significa que todo judeu, na verdade todo ser humano, independentemente de tempo, lugar e status pessoal, tem a total capacidade (e também o dever) de elevar-se e atingir o mais alto grau de realização, e conseguir o mesmo para a criação como um todo.
ROSH HASHANÁ - O ANIVERSÁRIO DO HOMEM
Esta idéia é reforçada pelo fato de que o Ano Novo Judaico – Rosh Hashaná – celebra o nascimento do homem, que ocorreu no sexto dia da criação.
Na liturgia de Rosh Hashaná vemos que este é chamado “o dia do início de Tuas obras” (texto da prece para Rosh Hashaná). Por que é o “início de Tuas obras” quando, na verdade, Rosh Hashaná corresponde ao sexto dia da criação?
A resposta é fornecida pelos Rabinos: Visto que o homem é o supremo propósito e razão de ser de todos os âmbitos do universo e com a criação do homem, a criação inteira foi completada e realizada, o homem, com efeito, incorpora toda a criação como se, antes dele, nada tivesse sido criado.
Apesar disso, a pergunta deve ser feita. Como isso pode ser verdade quando há um mundo notável além do homem, um mundo impressionante e digno de nota, como declaram os Salmos: “Como são numerosas as Tuas obras, ó D’us”, e “Como são notáveis as Tuas obras, ó D’us”?
Além disso, considerando a criação como um todo, vemos que a “espécie falante” – o homem – é numericamente muito inferior que a ordem dos animais e menor ainda que a ordem das plantas, e menos em comparação com a matéria inorgânica (terra, minerais, etc.).
A resposta – e este, na verdade, é um dos ensinamentos básicos de Rosh Hashaná no que diz respeito à toda a criação – é a seguinte: A ordem na escala de todas as coisas criadas onde substância inorgânicas excedem as plantas, as plantas superam em número os animais, e o homem é a menor espécie de todas, está baseada na consideração de quantidade. No entanto, quando se considera a qualidade, a ordem é invertida: matéria inorgânica, que não tem sinais de vida e locomoção, está na base da escala; acima dela vem o mundo das plantas, dotado de crescimento, mas sem vitalidade e o movimento dos animais; ainda mais acima está o reino animal que, como os animais não possuem intelecto humano, é inferior ao homem – a mais elevada de todas as criaturas. Pois, embora um animal tenha um intelecto todo seu, este não é um fim em si mesmo, mas um instinto, cuja função é servir às necessidades naturais do animal. No entanto, o intelecto humano – desde que a pessoa se conduza como um ser humano e não como um animal – é principalmente um fim em si mesmo. Além disso, o intelecto humano atinge seu objetivo e plenitude não quando serve de instrumento para a gratificação das necessidades físicas, como é o caso dos animais, mas sim quando todas as funções naturais como comer, beber e similares, se tornam servas do intelecto, para que a pessoa possa elevar-se ainda mais alto na busca intelectual e espiritual. Porém esta não é exatamente a verdadeira realização do ser humano. A verdadeira plenitude é atingida quando o intelecto o leva à percepção que existe algo mais elevado que o intelecto, para que o intelecto se renda por completo àquele ideal.
Em termos mais claros, a plenitude humana é atingida quando o intelecto reconhece que o homem, e com ele toda a criação, deve esforçar-se para atingir o reconhecimento e o apego a D’us, Criador do Universo e Mestre de tudo que nele existe.
Este conceito está diretamente relacionado, e deve permear, nossa vida diária como fica evidente também pelo fato de que o Salmo que começa com “D’us reina, Ele Se revestiu em majestade” – ter sido instituído como o “Salmo Diário” para o sexto dia de toda semana do ano. Isto é o que Adam, o primeiro homem, realizou quando reconheceu a soberania do Criador, elevando a si mesmo e toda a criação ao nível de reconhecimento de D’us.
A lição geral a ser deduzida de tudo isso é a seguinte: refletindo sobre si mesma, a pessoa verá que a maior parte da sua vida e a maioria dos seus esforços são despendidos com coisas que, à primeira vista, são materiais e mundanas, como comer, beber, dormir e similares. Fica evidente também que há um número maior de “homens do mundo” que de “homens de espírito”. Em geral, vê-se mais pessoas imersas em assuntos materiais. Por isso, alguém poderia pensar erroneamente que talvez os aspectos físico e material da vida são os mais importantes no mundo.
Rosh Hashaná nos ensina que o oposto é o verdadeiro. Para certificar isso, tomou cinco dias e parte do sexto para criar todos os tipos de criaturas. Porém foi o homem, uma parte muito pequena da criação no tempo e no espaço, que era a essência e propósito de toda a criação. E no homem, também, o essencial não é o corpo, que é “pó da terra”, mas a alma, o espírito vivo que D’us “soprou em suas narinas”; uma alma que é “realmente parte do D’us acima”. Somente depois que o homem foi criado com a centelha Divina dentro dele, a criação inteira se tornou digna e completa. Assim, o homem pode ser corretamente descrito como o “início” da criação em todos os âmbitos, e Rosh Hashaná, o nascimento do homem, como “o dia do início de Tuas obras”.
O PODER DO JUSTO
Porém logo depois da criação a narrativa bíblica prossegue com a tentação do fruto proibido, o pecado de Adam e o subseqüente exílio do Jardim do Éden. A serpente, sinônimo da má inclinação, persuade o homem a desconsiderar a missão de sua alma em troca do prazer momentâneo. Adam precipita a humanidade num conflito constante entre sua má e sua boa inclinação.
Os Sábios descrevem o que aconteceu da seguinte maneira: Na época da criação a Shechiná – a Divina Presença – repousava na terra. Após o pecado de Adam, a Shechiná se afastou da terra para o primeiro firmamento (os Sábios falam da existência de sete firmamentos, i.e., níveis espirituais), e depois dos pecados de Caim e Abel, e a geração subseqüente de Enosh, a Shechiná se removeu ainda mais, para o segundo e terceiro firmamentos, até que a Shechiná fo removida, por meio dos pecados das gerações seguintes, ao sétimo firmamento.
Foi o justo Avraham que, através do seu serviço Divino, fez a Shechiná retornar a um nível, o sexto firmamento. Seu filho Yitschac e seu neto Yaacov, e em seguida gerações subseqüentes de pessoas justas, devolveram ainda mais a Shechiná, até que Moshê, a sétima geração a partir de Avraham, fez voltar a Divina Presença a esta terra, quando ele construiu o Tabernáculo no deserto e a Shechiná repousou ali.
Um dos grandes ensinamentos do Báal Shem Tov, o fundador do Movimento Chassídico, é sobre o contínuo processo da criação. A energia criativa Divina está constantemente pulsando na criação, fazendo-a existir ex-nihilo a cada segundo. Se D’us parasse de criar o mundo, mesmo que por um instante, tudo se reverteria ao nada e ao vazio, como antes da criação. Quando os Sábios falam sobre a “remoção da Divina Presença”, não estão sugerindo que D’us literalmente Se removeu do mundo – pois aí o mundo deixaria de existir. Ao contrário, eles estão sugerindo que o pecado cria uma insensibilidade para com a Divina Presença. A Divindade não é mais manifesta e sentida pela criação. É quase como se D’us estivesse exilado do Seu mundo. Este foi o resultado de gerações de pecado, e foi somente pelos esforços dos justos que o mundo ficou novamente sensível à Divina Presença e tornou-se uma morada adequada para Sua presença.
UMA MORADA PARA D'US
Foi Avraham quem iniciou o processo de retorno, trazendo a Presença Divina do sétimo para o sexto firmamento. Ele conseguiu isso estabelecendo uma casa de hóspedes em Beer Sheba e servindo comida e água aos viajantes. Depois que eles comiam, Avraham lhes pedia para dar Graças. A Torá nos relata: “E Avraham chamava o nome de D’us.” Os Sábios comentam ‘não lê’, “e ele chamou’, mas leu, ‘e ele fez chamar’’, i.e., ele encorajou outros a chamarem. Maimônides declara que Avraham tinha tamanha influência em seu tempo que conseguiu converter boa parte da civilização conhecida a acreditar no monoteísmo.
Esta tarefa foi continuada por seus filhos, e as tradições patriarcais e crença no monoteísmo foram continuadas e mantidas mesmo depois da descida de Yaacov ao Egito e a subseqüente escravidão e cativeiro. Embora impregnados e assimilados pela cultura egípcia, os Filhos de Israel, em particular a tribo de Levi, manteve sua identidade e suas crenças.
D’us tinha prometido a Avraham que seus descendentes serviriam uma nação estrangeira somente por um determinado tempo, após o qual seriam redimidos. Quando chegou o tempo da redenção D’us enviou Moshê, bisneto de Levi, filho de Yaacov, para cumprir aquela tarefa. O faraó, um deus auto-proclamado, foi sistematicamente destruído pelas Dez Pragas. Ele e seus mágicos foram forçados a admitirem que o “dedo de D’us” estava em ação. Finalmente o povo judeu deixou o Egito, uma redenção do cativeiro que se tornou o protótipo para todas as futuras redenções.
Eles testemunharam mais milagres – a abertura do mar e a derrota dos amalequitas. Quarenta e nove dias após deixarem o Egito, ele ficaram ao pé do Monte Sinai onde ouviram os Dez Mandamentos do próprio D’us.
D’us lhe deu Sua Torá-instrução para toda a nação. Logo depois do Sinai, Ele instruiu Moshê: “Façam para Mim um santuário, para que Eu possa habitar no meio deles.”Moshê iniciou a construção do Mishcan – o Tabernáculo – uma estrutura portátil que abrigava a Arca Sagrada, que continha as Tábuas de pedra e o Rolo da Lei. O Tabernáculo seria o protótipo para todas as futuras sinagogas. Quando finalmente ficou completado, a Presença Divina ali repousava. Os Sábios nos dizem que a tarefa estava completa, e a Divina Presença agora tinha voltado ao mundo.
A construção do Tabernáculo exemplifica o propósito da criação que, nas palavras do Midrash, é que “D’us desejava ter uma morada nos mundos inferiores”. O propósito do homem é tomar a criação e permeá-la com Divindade.
Esta idéia foi exemplificada no Tabernáculo. Quando os judeus deixaram o Egito, levaram consigo grandes riquezas, que depois doaram para os materiais necessários para a construção do Tabernáculo. Todo aspecto dos reinos mineral, vegetal e animal foi representado no Tabernáculo. As paredes eram feitas de painéis de madeira revestidos de ouro. As oferendas levadas ao Tabernáculo representavam a elevação da dimensão animalesca dentro do homem e sua dedicação a um propósito mais elevado. Todo aspecto do Tabernáculo transformava o material em espiritual. Assim o Tabernáculo, que nossos Sábios dizem que era um microcosmo, ou símbolo, do universo, refletia nossa própria tarefa no mundo; ou seja, pegar o material e transformá-lo e elevá-lo para um propósito espiritual. Por exemplo, comer para ficar saudável para estudar Torá e cumprir as mitsvot, usar couro animal para as mezuzot e tefilin e outros semelhantes.
UMA MORADA DENTRO DE CADA PESSOA
Na frase: “Façam para Mim um santuário, para que Eu possa habitar entre eles”, há um significado mais profundo. Gramaticalmente, deveria ter declarado “para que Eu possa habitar nele”, porém declara “para que Eu possa habitar entre eles.” Os Sábios enfatizam que a construção do Tabernáculo é uma sugestão para cada pessoa construir uma habitação para a Divina Presença dentro de si mesma.
Como foi mencionado anteriormente, toda pessoa recebe uma alma Divina. É tarefa da alma fazer um Mishcan do corpo no qual ela reside, elevando todas as funções corporais a um Divino propósito.
Em resumo, isso significa poder conectar toda função corporal a D’us – e este é exatamente o propósito da Torá e mitsvot. Na Torá, D’us nos instrui sobre como conectar toda esfera de operação e função com D’us. Por exemplo, em termos de tempo, “seus dias trabalhareis e o sétimo descansareis.” A função do Shabat é permitir que a pessoa se afaste do mundano e se concentre no espiritual durante um dia por semana. Isso, por sua vez, cria uma nova perspectiva na semana vindoura. Pelo simples fato de dedicar um dia por semana ao estudo e à prece, a pessoa eleva a semana inteira.
As leis da cashrut conectam um judeu em seus hábitos alimentares, e as leis de Taharat Hamishpachá elevam a intimidade. E assim com todas as mitsvot.
Os Sábios nos dizem que um ser humano é feito de 248 membros e 365 tendões. Estes correspondem aos 248 mandamentos positivos e aos 365 mandamentos negativos da Torá. A palavra mitsvá em aramaico significa “uma conexão”. Assim, há 613 maneiras de se conectar com D’us. O homem tem a capacidade de conectar todo seu ser com D’us. Ao realizar esta tarefa ele cria uma morada para D’us neste mundo, assim cumprindo o propósito da criação.
Os mundos do espiritual e do material não estão em conflito. O supremo objetivo é que se fundam e o material se mescle ao espiritual, O âmago de do cumprimento de todas as mitsvot é tomar a criação material e utilizá-la para um propósito Divino. Isto proporciona uma harmonia maravilhosa tanto no indivíduo quanto no mundo em geral. Este tema não é relegado à sinagoga ou aos momentos de prática religiosa. Ao contrário, abrange todos os tempos e lugares; onde quer que esteja e toda vez que uma pessoa age, pode utilizar a tarefa à mão para seu propósito correto, o Divino.
AS RECOMPENSAS DO MUNDO VINDOURO
O Talmud está repleto de referências ao Mundo Vindouro. Maimônides o descreve como “um mundo de almas’, um plano espiritual aonde a alma retorna após sua estada neste mundo. A alma faz um balanço de sua vida e, em seguida, seus méritos e deméritos são cuidadosamente pesados nas balanças Divinas. Ele é então recompensado pelas boas ações e pelo estudo de Torá. A recompensa toma a forma de uma revelação da glória de D’us, “banhar-se na Divina luz”. Talvez seja necessário que a alma se purifique de sus indulgências e iniqüidades, sendo enviada ao Gehinom, um local para purificação espiritual, após o qual ascende ao céu. O Talmud usa os termos “Jardim do Éden” ou :Academia Celestial” para descrever diversos níveis e estágios da recompensa celestial.
Nesse sentido este mundo é um mero “corredor antes do Mundo Vindouro”, um degrau temporário onde se pode ganhar um lugar e um assento no Mundo Vindouro. Na verdade os Sábios declaram que “melhor uma hora de felicidade celestial no Mundo Vindouro que todos os prazeres deste mundo” (Avot 4:17). Não se deve servir a D’us apenas para receber esta recompensa, porém D’us não permanece em débito, e recompensará a pessoa por todas as suas boas ações. Com esta finalidade há um “olho observando, um ouvido escutando e uma mão anotando” todas as ações de uma pessoa neste mundo. É mantida uma contabilidade exata.
Porém, por maiores que sejam as recompensas do Mundo Vindouro, elas não são o supremo propósito da criação. Como foi declarado acima, o supremo propósito é que D’us desejava ter uma morada nos mundos inferiores, neste mundo material e físico. É nesse sentido que os Sábios declaram que “melhor uma hora de arrependimento e boas ações neste mundo que todo o Mundo Vindouro”. Embora as revelações dos mundos espirituais mais elevados sejam magníficas e uma verdadeira recompensa para os esforços da alma, o supremo desejo de D’us, no entanto, são as boas ações e as mitsvot deste mundo.
É por este motivo que não há uma menção declarada do Mundo Vindouro nas Escrituras. A Torá está preocupada primeiramente com a vida neste mundo. A alma existe antes de sua descida, e retorna ao âmbito celestial após a vida. É uma “descida com o propósito da subida”, sendo que a subida é o cumprimento do supremo propósito da criação, a criação de uma morada para D’us neste mundo.
O Rei Shelomô descreve a alma como “a lamparina de D’us”. Para que D’us precisa de uma lamparina? Existe algum lugar que seja escuro perante Ele? A vela é necessária para este mundo, no qual D’us revestiu Sua majestade. A alma ilumina o corpo e o mundo, permitindo-lhe reconhecer o Criador, por meio do cumprimento da Torá e mitsvot na vida diária.Rabi Shneur Zalman de Liadi, fundador de Chabad, costumava dizer: “Eu não desejo Teu Jardim do Éden, eu não quero Teu Mundo Vindouro, quero apenas a Ti, a Ti Mesmo.” Ele queria dizer que, embora a felicidade espiritual do Mundo Vindouro seja grande, D’us, Ele Mesmo, é sentido apenas ao se cumprir o supremo propósito – com uma hora de arrependimento e boas ações neste mundo.
UM PROPÓSITO ESPEFÍFICO
Além disso, toda alma tem um propósito específico além do objetivo geral de fazer uma morada para D’us neste mundo. O Báal Shem Tov dizia que uma alma, além de cumprir a Torá e mitsvot, pode descer a este mundo e viver durante 70 ou 80 anos apenas para fazer um favor no âmbito material ou no espiritual. Como alguém sabe o seu propósito específico? Como a pessoa sabe qual favor é o propósito para a descida de sua alma? A resposta é que tudo acontece pela Divina Providência, e se uma pessoa se vê frente a uma determinada oportunidade, certamente esta foi enviada pelo Alto, e deve ser tratada como se fosse o objetivo para a descida da própria alma.
Nossos Sábios declararam “tudo vem das mãos do céu, exceto o temor ao Céu”. Isso significa que tudo que acontece a uma pessoa vem do Céu. O tempo e local específicos em que uma pessoa vive e sua posição na vida, se é rica ou pobre, etc., são decididos Acima. A única contribuição da pessoa é “o temor do Céu” – sua reação numa determinada situação. Todos encaramos oportunidades únicas e desafios, e cabe a nós utilizá-los para o propósito Divino.
A DESCIDA DA ALMA
Nossos Sábios declararam ainda que “toda e cada alma esteve na presença da Sua Divina Majestade antes de descer a esta terra”, e que “as almas são tiradas de sob o Trono da Glória.” Estes ditos enfatizam a natureza essencial da alma, sua santidade e pureza, e como ela está completamente separada de qualquer coisa material e física; a alma em si, por sua própria natureza, não está sujeita a quaisquer desejos materiais ou tentações, que surgem apenas no corpo físico e na “alma animalesca”.
Mesmo assim, foi a vontade do Criador que a alma – que é realmente uma “parte” do Divino, deveria descer ao mundo físico e grosseiro, e ficasse confinada, e unida, com um corpo físico por alguns anos num estado diametralmente oposto à sua natureza espiritual. Tudo isso com a finalidade de uma Divina missão que a alma tem de desempenhar para purificar e espiritualizar o corpo físico e seu ambiente físico a ela relacionado, fazendo deste mundo uma morada para a Divina Presença. Isso somente pode ser feito por meio de uma vida de Torá e mitsvot.
Quando a alma cumpre sua missão, toda a dor e sofrimento transitórios conectados com a descida da alma e a vida nesta terra são não apenas justificados, mas também superados, pela grande recompensa e felicidade eterna que a alma desfruta depois.
UMA OPORTUNIDADE DESPERDIÇADA
Pelo exposto acima pode-se avaliar a extensão da tragédia de desconsiderar a missão da alma na terra. Pois, ao fazê-lo, faz-se com que a descida da alma a este mundo tenha sido em vão, pois não atingiu o seu propósito. Mesmo quando há breves momentos de atividade religiosa no estudo de Torá e no cumprimento de mitsvot, é triste contemplar com que freqüência esta atividade é manchada pela falta de verdadeiro entusiasmo e júbilo interior, sem o reconhecimento de que estas são as atividades que justificam a existência.
Além de perder o ponto vital pela falha em aproveitar a oportunidade de cumprir a vontade de D’us, assim merecendo os eternos benefícios que advêm disso, é contrário à razão escolher aquele lado da vida que acentua a escravidão e decadência da alma ao mesmo tempo em que rejeita o bem intrínseco; ou seja, a grande elevação que resulta da descida da alma.
A atitude certa é aproveitar ao máximo a permanência da alma na terra, e uma vida permeada pela Torá e mitsvot torna isso possível.
Está claro também que como D’us, que é a essência da bondade, força a alma a descer de suas alturas sublimes para as profundezas com o propósito de estudar Torá e cumprir as mitsvot, isso deve significar que o valor da Torá e mitsvot é muito elevado.
Além disso, a descida da alma com o propósito de ser elevada demonstra que não há outra maneira de obter este objetivo, exceto por meio da descida da alma para viver nesta terra. Se houvesse uma maneira mais fácil, D’us não obrigaria a alma a descer a este mundo inferior. Pois somente aqui, naquilo que os cabalistas chamam de mundo inferior, a alma pode atingir seu nível mais elevado, mais elevado até que o dos anjos e, como dizem nossos Sábios: “Os justos são superiores aos primeiros anjos”.
SERVIR A D'US COM JÚBILO
Refletindo sobre a grandeza da Torá e das mitsvot, especificamente no que diz respeito a esta vida, refletindo também que a Torá e mitsvot são o único meio de se conseguir a perfeição da alma e o cumprimento do Divino propósito; a pessoa terá uma sensação de verdadeira alegria quanto ao próprio fado e destino, apesar das muitas dificuldades e obstáculos, internos e externos, que são inevitáveis nesta terra. Somente dessa maneira pode-se corresponder à ordem “Serve a D’us com júbilo”, a qual o Báal Shem Tov fez uma das fundações de seus ensinamentos, que é explanada em profundidade nos ensinamentos de Chabad e enfatizada por Rabi Shneur Zalman de Liadi em sua obra monumental, o Tanya (cap. 26, 31).
Em última análise, trilhar este caminho na vida levará à verdadeira felicidade. Felicidade – no sentido judaico – pode ser definida assim: quando alguém está fazendo aquilo que D’us deseja dele naquele dado momento, então ele pode ser realmente feliz. Portanto, se em qualquer dado momento ou situação, um indivíduo age de acordo com as diretivas da Torá-instrução, ele é realmente uma pessoa feliz e abençoada. Esta sensação transcende todos os assuntos mundanos, pois esta pessoa entende que tudo que acontece na vida é orquestrado por D’us.
CONCLUSÃO
Obviamente é necessário estudar Torá e ter consciência de como cumprir suas diretivas na vida diária. A Torá é a sabedoria Divina, e não há união maior com D’us que pela unidade intelectual do estudo. Porém, “a ação é o principal”. O supremo propósito do estudo é levar à ação – ao cumprimento das mitsvot – no sentido de cumprir o propósito da criação, de fazer uma morada para D’us neste mundo.Toda e cada mitsvá tem um efeito cósmico e revela a presença de D’us. A revelação total deste efeito será aparente quando Mashiach vier. Naquela era, toda a busca do homem será conhecer a D’us.Jerusalém, a capital espiritual do mundo é formada de duas palavras hebraicas, yirah e shalem, que significam “perfeita reverência”. A reconstrução de Jerusalém denota a reconstrução no mundo daquele estado perfeito de reverência e a presença total de D’us, que foi encontrada no jardim do Éden. Cada mitsvá individual é um passo no sentido de cumprir aquela meta.Seria bom para nós darmos atenção ao conselho do Rei Shelomô, o mais sábio de todos os homens, quando escreveu ao final do Livro de Cohêlet: “Em última análise, tudo se sabe; teme a D’us, e observa Seus mandamentos; pois este é todo o propósito do homem.”Nas palavras de nossos Sábios, “Eu fui criado com o único propósito de servir ao meu Criador."